Bolsonaro da aula de humildade reconhecendo que não entende de economia e consulta um especialista


Daniel Martins/FNP

A escassez de propostas na área econômica do pré-candidato à Presidência da República Jair Bolsonaro está com os dias contados. Instado a opinar sobre o assunto, o deputado federal costuma recorrer a evasivas ou ao pensamento de viés nacionalista do tempo da ditadura militar. Mas, nas últimas semanas, começou a receber aconselhamento periódico do economista Adolfo Sachsida, 45 anos.

O homem que faz a cabeça de Bolsonaro na economia foi convidado para elaborar o embrião de um programa de governo e lidera uma equipe de 11 especialistas nas mais diversas áreas - do meio ambiente à agricultura e políticas sociais -, doutores em economia, administração, estatística. O convite partiu do advogado e professor Bernardo Santoro, 35 anos, braço direito de Bolsonaro na área política e na organização do PEN/Patriota, partido para o qual o parlamentar migrará a fim de concorrer ao Planalto.

Sachsida é pesquisador do Ipea e tem se encontrado frequentemente com Bolsonaro. Frisa que colabora fora do horário de expediente e sem remuneração. As reuniões são no gabinete do deputado, em Brasília, e duram em média, 50 minutos, a partir das 7h30. Por suas contas, já ocorreram quatro reuniões. É o interlocutor direto. O restante do time de especialistas lhe envia sugestões por e-mail, discute as ideias no grupo de Whatsapp, com a participação de Bolsonaro, mas é ele quem se encontra pessoalmente com o presidenciável.

Sachsida afirma achar ofensivo e deselegante dizer que está dando aula de economia para Bolsonaro. "Gostaria de saber se perguntam ao Arminio [Fraga, ex-presidente do Banco Central] se ele dá aula para o Luciano Huck", comenta, em referência ao apresentador de TV que também se movimenta na corrida presidencial. Prefere definir o que está havendo como "uma troca de ideias" e diz que ficou "espantado" pelo fato de Bolsonaro ser "um defensor de várias ideias liberais". O economista afirma que o deputado tem sido muito receptivo nas conversas, cita bandeiras que representam uma guinada na rarefeita agenda econômica apresentada por Bolsonaro e nega que a mudança já seja resultado do curto convívio: "Não vou falar de antes, falo de agora".

Sachsida afirma que o deputado é favorável à independência do Banco Central e que Bolsonaro, na sexta-feira, chegou a postar um comentário neste sentido no Twitter. Mas, na entrevista que concedeu ao Valor em fevereiro do ano passado, o parlamentar criticava a autonomia: "Daí eles decidem a taxa de juros de acordo com os interesses dos colegas do mercado financeiro? Então é melhor o pessoal do Banco Central governar o país como se uma junta fosse". Bolsonaro argumentava que as pessoas no BC "não são independentes", assim como as das agências reguladoras: "São escolhas políticas".

No entanto, a considerar o ideário relatado por Sachsida, o discurso econômico de Bolsonaro já está menos nacionalista, mais pró-mercado e mais moderado. Na mesma entrevista, o presidenciável reforçou tradicionais críticas ao programa Bolsa Família, uma marca do governo do PT. Agora, segundo o economista, Bolsonaro é defensor do fortalecimento dos programas sociais baseados em transferência de renda.

Sachsida diz que o Bolsa Família pode ser entendido como um "imposto de renda negativo", ideia popularizada pelo economista Milton Friedman (1912-2006) a partir do conceito defendido por Friedrich Hayek (1899-1992), outro papa do liberalismo. A fonte de financiamento do programa social poderia vir de recursos voltados para subsídios e desonerações que não dão resultado. O economista destaca o nome de Mansueto Almeida, à frente da Secretaria de Acompanhamento Econômico (Seae) do Ministério da Fazenda, que publicou uma nota segundo a qual o governo federal concedeu R$ 723 bilhões em subsídios entre 2007 e 2016. Almeida, especialista em contas públicas, é visto como nome que agradaria Bolsonaro como ministro da Fazenda.

Sobre privatização, Bolsonaro era contra a venda do Banco do Brasil - em sua opinião, prejudicaria o produtor rural - e tinha dúvidas em relação à da Petrobras. Agora, afirma Sachsida, "ele aceita pensar em privatizações" em geral, embora faça considerações políticas no que se refere à estatal de petróleo. A sugestão do economista é que o processo de desestatização comece pelo BNDESPar, que "está cheio de ações de empresas privadas". "Vamos começar pelo mais fácil, colocar no mercado estas ações", diz.

Bolsonaro, acrescenta, também é favorável ao tripé econômico: "A parte macroeconômica seria muito parecida ao que propõem as ideias liberais". O único ponto onde não há consenso entre o deputado e um arcabouço abertamente liberal diz respeito ao papel que a China teria num eventual processo de privatizações de empresas brasileiras. "Nesse caso, ele olha a geopolítica e é muito influenciado pelo pensamento mais conservador americano, que faz restrições ao comércio com a China, porque não é uma democracia", diz Sachsida, que deu aulas na Universidade do Texas, em 2006 e 2007.

O pesquisador conta que na discussão sobre reforma tributária Bolsonaro se mostrou defensor de uma redução mais radical de impostos, mas que a posição de consenso terminou por ser a simplificação de tributos. "É um meio termo. Aí a culpa é minha, porque disse: 'Vamos com calma, por causa das contas públicas e da arrecadação'", relata. Sobre as reformas previdenciária e trabalhista, Sachsida disse que se sente menos confortável em comentar e que Bolsonaro é quem poderia opinar, por serem temas da agenda política atual.

O primeiro contato pessoal entre os dois ocorreu quando foram apresentados durante uma palestra. Depois, conta Sachsida, o gabinete do deputado o convidou para, no dia da votação da PEC do Teto dos Gastos, em outubro do ano passado, ter uma conversa sobre o tema. Bolsonaro também estava se consultando com outras pessoas. Em 20 minutos, Sachsida explicou por que recomendava que o parlamentar votasse a favor do teto. Foi a decisão do parlamentar no plenário.

Em nota divulgada ontem, "a respeito de matéria divulgada em redes sociais", Bolsonaro afirmou que Adolfo Sachsida "não integra e nunca integrou os quadros de servidores lotados no meu gabinete ou dos meus filhos". Mas ressaltou que tem se "encontrado com o citado economista, ocasiões em que de forma espontânea temos conversado diversos assuntos sobre economia".

A relação se estreitou a partir de agosto, após anúncio de que Bolsonaro se mudaria para o PEN/Patriota. Sachsida foi indicado ao deputado pelo advogado Bernardo Santoro, que já se filiou ao partido e está na linha de frente da pré-campanha e da refundação da legenda, embora diga ser apenas um "soldado do capitão", numa referência à patente do ex-militar. Bolsonaro espera a abertura da janela de troca partidária para se filiar, mas já ocupa postos estratégicos no futuro Patriota. Santoro é o secretário-geral nacional e o primeiro vice-presidente do diretório estadual do Rio.

Em comum com Sachsida, o dirigente tem a ligação com o Instituto Liberal, dirigido por Rodrigo Constantino, 41 anos, além da tentativa de conquistar um cargo eletivo. Santoro concorreu a vereador no Rio em 2012, quando obteve 1.193 votos, pelo PSL. Sachsida candidatou-se a deputado do Distrito Federal, em 2014, e conseguiu 3.372 votos, pelo DEM, sigla à qual ainda está filiado. Santoro, depois de passar pelo PSL, entrou no mesmo PSC de Bolsonaro e escreveu o programa de governo da candidatura a presidente do pastor Everaldo Dias Pereira, em 2014.

Outra coincidência são as polêmicas em que se envolveram. Em julho do ano passado, Sachsida foi nomeado e demitido, no mesmo dia, do cargo de assessor especial do ministro da Educação quando veio à tona ser um defensor do movimento Escola Sem Partido. Em 2014, Santoro dava aulas na faculdade de Direito da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj), quando foi acusado por uma aluna, ligada ao coletivo feminista da universidade, de tecer comentários machistas na internet e em sala de aula. "Fui acusado de ser perseguidor de aluno comunista, num lugar onde a maioria dos meus pares é de esquerda, uma coisa bizarra. Tenho posição conservadora que não agrada a muita gente", diz.

Santoro é evangélico, da Nova Igreja, e se aproximou do presidenciável por intermédio do filho, o deputado estadual Flávio Bolsonaro. Entre 2007 e 2011, militava no Partido Libertários, que estava em formação, mas não prosperou. Radical, o Líber se dividia entre anarcocapitalistas, que propunham a extinção do Estado, e minarquistas, defensores do Estado mínimo. "Eu era o líder dos minarquistas, um moleque meio extremado. Mas isso não me define mais", diz.

Valor


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